Friday, November 06, 2009
Wednesday, November 04, 2009
Ouvi dizer que... XVIII
No episódio de hoje, é Rui Jacaré quem é confrontado! Sentado num transporte público a caminho do trabalho, o nosso director é interpelado (e interpolado também) pela senhora do banco imediatamente atrás:
Senhora do banco imediatamente atrás [batendo nas costas de Rui Jacaré] - Olhe, desculpe? Tem uma formiga a passear na gola do seu casaco...
Rui Jacaré - Ah... Obrigado [grunhido imperceptível]
Senhora do banco imediatamente atrás [batendo nas costas de Rui Jacaré] - Olhe, desculpe? Tem uma formiga a passear na gola do seu casaco...
Rui Jacaré - Ah... Obrigado [grunhido imperceptível]
Tuesday, November 03, 2009
Pequena Alexandra na mira de clubes portugueses
Com o aproximar da abertura da janela de transferências de Dezembro – e do fecho da janela do quarto porque está um briol do caneco –, os clubes nacionais e estrangeiros (Nacional da Madeira e Marítimo incluídos) tentam reforçar as suas equipas para a segunda metade da época ou, no caso do Sporting, para o agoniante aguentar do resto da temporada.
Um dos nomes que promete mais dar que falar é o da pequena Alexandra, criança russa que já passou pela nossa liga, na altura nas camadas jovens do Braga. Todavia, a criança regressou ao país natal guiada pelo seu útero formador, uma russa alcoólica. Esta decisão veio no seguimento de uma outra de um juiz FIFA, o qual determinou que Alexandra – conhecida por “Xaninha” nos relvados lusos – deveria regressar ao seu clube de origem, o Czar da Rússia.
Embora tenha andado largos tempos fora da equipa principal (nomeadamente por castigo do clube imposto pelo presidente, o seu avô veterano do exército), a pequena Alexandra não foi esquecida em Portugal. Há algumas semanas, a sua agente FIFA e também sua avó (uma velha que fala russo) esteve mesmo em Portugal para negociar o regresso da nº 10 ao clube minhoto onde despontou.
Porém, as condições oferecidas – dinheiro e 30% do passe em forma de casa e emprego para a mãe – não viriam a convencer os russos e Alexandra continuou no clube dos arredores de Moscovo.

A pequena Alexandra no centro de estágios do seu actual clube.
Agora, e por motivos de miminhos e de condições de vida em atraso, Alexandra poderá rescindir contrato. O caso está entregue à justiça russa e vislumbra-se já o seu regresso ao campeonato onde já jogou Quim Machado. Na verdade, o Benfica terá já sondado a atleta ao saber que também ela – à semelhança de Coentrão e Cardozo – teve uma infância difícil e na pobreza. O clube da Luz terá já oferecido um contrato vantajoso e uma cláusula de rescisão de 70 milhões de euros. Ao saber disto, o Porto terá por isso mesmo pensado em avançar para a sua contratação, estando para já em águas de bacalhau pois não poderá ser emprestada ao Olhanenses. A razão não é o ar ameaçador de Jorge Costa mas sim Olhão estar a poucas dezenas de quilómetros da Praia da Luz.
Contudo, notícias mais recentes apontam para a real possibilidade de Alexandra reforçar sim o Sporting, até porque tem duas qualidades bem vistas pelos responsáveis leoninos: está dentro da média de idades da equipa principal e, finalmente, o Miguel Veloso teria alguém com quem brincar às bonecas.
Porém, já esta manhã foi avançada pela Agência Loser a hipótese de Gueorgui Tsklauri, pai da menina e detentor de metade do seu ADN, exigir a colocação de Alexandra no clube ucraniano do qual é accionista parasitário. Para já, o futuro próximo de Alexandra, de forma a ganhar ritmo e limpar a cabeça, poderá passar pelo empréstimo a um orfanato russo até que a situação fique esclarecida.
Um dos nomes que promete mais dar que falar é o da pequena Alexandra, criança russa que já passou pela nossa liga, na altura nas camadas jovens do Braga. Todavia, a criança regressou ao país natal guiada pelo seu útero formador, uma russa alcoólica. Esta decisão veio no seguimento de uma outra de um juiz FIFA, o qual determinou que Alexandra – conhecida por “Xaninha” nos relvados lusos – deveria regressar ao seu clube de origem, o Czar da Rússia.
Embora tenha andado largos tempos fora da equipa principal (nomeadamente por castigo do clube imposto pelo presidente, o seu avô veterano do exército), a pequena Alexandra não foi esquecida em Portugal. Há algumas semanas, a sua agente FIFA e também sua avó (uma velha que fala russo) esteve mesmo em Portugal para negociar o regresso da nº 10 ao clube minhoto onde despontou.
Porém, as condições oferecidas – dinheiro e 30% do passe em forma de casa e emprego para a mãe – não viriam a convencer os russos e Alexandra continuou no clube dos arredores de Moscovo.

A pequena Alexandra no centro de estágios do seu actual clube.
Agora, e por motivos de miminhos e de condições de vida em atraso, Alexandra poderá rescindir contrato. O caso está entregue à justiça russa e vislumbra-se já o seu regresso ao campeonato onde já jogou Quim Machado. Na verdade, o Benfica terá já sondado a atleta ao saber que também ela – à semelhança de Coentrão e Cardozo – teve uma infância difícil e na pobreza. O clube da Luz terá já oferecido um contrato vantajoso e uma cláusula de rescisão de 70 milhões de euros. Ao saber disto, o Porto terá por isso mesmo pensado em avançar para a sua contratação, estando para já em águas de bacalhau pois não poderá ser emprestada ao Olhanenses. A razão não é o ar ameaçador de Jorge Costa mas sim Olhão estar a poucas dezenas de quilómetros da Praia da Luz.
Contudo, notícias mais recentes apontam para a real possibilidade de Alexandra reforçar sim o Sporting, até porque tem duas qualidades bem vistas pelos responsáveis leoninos: está dentro da média de idades da equipa principal e, finalmente, o Miguel Veloso teria alguém com quem brincar às bonecas.
Porém, já esta manhã foi avançada pela Agência Loser a hipótese de Gueorgui Tsklauri, pai da menina e detentor de metade do seu ADN, exigir a colocação de Alexandra no clube ucraniano do qual é accionista parasitário. Para já, o futuro próximo de Alexandra, de forma a ganhar ritmo e limpar a cabeça, poderá passar pelo empréstimo a um orfanato russo até que a situação fique esclarecida.
Monday, November 02, 2009
Intermission (velhos conhecidos com cenas novas #4)
Para desanuviar do post anterior...
Bebel Gilberto, "Chica Chica Boom Chic" e "The Sun Is Shining", ao vivo no Jô Soares
Bebel Gilberto, "Chica Chica Boom Chic" e "The Sun Is Shining", ao vivo no Jô Soares
Saturday, October 31, 2009
Uma vida de cão
UM PRINCÍPIO
Algures no meio do planeta Terra, num aglomerado de glórias idas e complexos de inferioridade chamado Portugal, Joca e dois amigos sujeitam-se a um patético mas indispensável ritual masculino: ir à discoteca tentar engatar gajas. Além do incorrecto uso do plural na última palavra da pretérita frase, estes jovens aliavam ao seu mau aspecto, e ainda pior personalidade, o celebrar desenfreado de três dos mais perigosos flagelos conhecidos: álcool, droga e atitute-macho juvenil. É nesta discoteca manhosa – situada numa zona industrial da capital portuguesa, uma estratégia de marketing ainda por explicar – que estes três adeptos do tuning, bebida e ganza se misturam com algumas fêmeas que também elas procuram parceiro de acasalamento, isto no sentido moderno do termo, claro.
Os amigos de Joca querem bazar. Joca nem por isso. A música não está nada de especial (o Dj é “aquele broche Alvim”, sentenciou um dos seus informados amigos) mas a mescla álcool-charro leva-o a sentir-se estranhamente (o advérbio é nosso) confiante para engatar e ter relações – claramente sexuais - com uma dessas fêmeas. E eis que vê dançar no meio da pista uma rapariga mais velha que trabalha no mesmo edifício que ele. A diferença é que ela não foi lá parar via centro de emprego – é doutora. Nunca fala com ninguém, muito menos com Joca, membro da equipa de manutenção do edifício. A maneira como ela dança – embora as formas e cores que Joca vê estejam um pouco desvirtuadas pela bebida e droga – deixa-o excitado. Tanto que vai à casa de banho olhar-se ao espelho e encenar um possível diálogo com ela para quebrar o gelo. Mas o pensamento em gelo fá-lo pensar em pedir uma bebida, isto depois de enrolar uma. Passa depois pelo bar para pedir, após uma minuciosa análise ao conteúdo monetário da sua carteira, uma imperial. Na verdade, Joca nem bebe “cá Bacardis e essas merdas que os betos bebem”, sendo os betos esses jovens que se chamam “puto” uns aos outros enquanto fazem a mímica típica de rappers negros de guettos que vêem na MTV ou – qual deles o pior – de actores assaz forçados num certo programa de ficção juvenil que passa todos os dias antes do TeleSangue, emissão informativa das oito da noite.
O chato é que quando Joca volta para perto da pista -já a rapariga tinha deixado o perímetro do degradante espaço de diversão nocturna. Fica zangado e também ele sai, decidindo – ou alguma parte do seu cérebro por si – pegar no carro e fumar o charuto a caminho de casa. Segue pela estrada alternativa, não vá a bófia caçá-lo outra vez. E é neste contexto algo cliché que se depara com a rapariga – a doutora boazona – na berma, a pé. E ainda boazona. Olha com um ar perdido para o descampado e nem nota que o Seat Ibiza comercial com música a tentar fugir assustada dos seus altifalantes de Joca parou ao seu lado.
“Ah… ‘tá tudo?” [pergunta Joca à rapariga, meio atrapalhado e de novo com uma certa agitação na zona pélvica]
“Tive de abandonar um deles aqui há pouco tempo…” [respondeu, como já puderam ver, algo enigmaticamente]
Joca está todo mamado – não no sentido em que preferia – e não sabe o que responder.
“Tu é mais ganza, não é? Já te vi fumar no estacionamento atrás dos escritórios” [disparou com um inquietante conhecimento dos tempos livres no trabalho de Joca]
Seguiu-se um silêncio aflitivo embora se ouvissem alguns grilos ao longe. Talvez estivessem a foder, pensou ela. E aproveitou a embalagem.
“Queres fumar a que enrolaste na casa de banho em minha casa e foder-me depois?” [sugeriu ela com assombrosa naturalidade]
O silêncio Joquiano permanece igual, senhoras e senhores. Mas ela sabia a resposta.
“Só para que saibas, tenho cães em casa.” [informou-o ao fechar a porta do carro]
UM MEIO
Em casa dela, e mantendo o seu nexo comportamental, Joca permanecia calado. Os amigos gozavam sempre com ele por isso. Quando tinha de dar paleio às gajas, ficava sempre calado e acabava por nunca se orientar com as senhoras. Ficou mais animado ao lembrar-se que estava em casa de uma gaja boa com quem ia fumar uma ganza e fodê-la depois (como a própria tão maravilhosamente colocou em palavras), enquanto os seus amigos Edson e Giggy estariam – mais do que provavelmente – em casa do primeiro a jogar Playstation todos acabados. Ela voltou – de banho tomado, de roupão e sem maquilhagem – e sentou-se ao seu lado. Não tinha perdido, como dizer, a sua capacidade de ser boa como o caraças, nem tão pouco o atrevimento.
“Costumo ver-te por lá, com os outros brutos da manutenção. Mas não penses que te acho diferente ou especial. Só aqui estás para apanharmos uma moca e comermo-nos a seguir” [explicou, tirando o charuto do bolso do casaco de Joca e acendendo os dois]
Ele gostava de mulheres. Se fossem directas ao assunto – s.e.x.o., isto é – e gostassem d’um fumozito, tanto melhor. Fumaram-na ao som de uma cena porreira qualquer, tipo jazz ou assim e começou a chupá-lo. “Ganda cenário” [eloquentemente murmurou Joca]
Num ápice, estão nus na cama, com as implicações inerentes. O quarto é parecido com ela: estátuas de budas ou o caraças, candeeiros marados, incenso… Mais fumo. Joca vê-se em cima dela, enfiando o seu “guerreiro de cabeça púrpura, investindo na sua feminilidade” como leu uma vez num romance que a Mãe Joca andava a ler. O filho aprendeu a nunca mais usar livros alheios para espalhar e preparar a ganza.
“Puxa o lençol para trás: quero que eles vejam.” [ordenou a rapariga]
Mas eles quem? Joca ficou algo baralhado. Os vizinhos? Colegas de apartamento? Ou será que filmava as quecas com a webcam como a prima dele para fazer chantagem com os homens casados de meia-idade com quem tinha relações? É então que vê à entrada do quarto dois ilustres representantes da raça canina, um bulldog e um caniche, para ser mais preciso. Olham (os cães) para eles calmos e serenos, sentados, enquanto fodem (Joca e a rapariga). O jovem acha tudo isto algo doentio – mesmo para os seus padrões – e pensa “Já que é para merdas maradas, vais levar com ele por trás, sua…” Bem, ficam com a ideia do seu pensamento. Aliás, e partindo do pressuposto que a rapariga não lê mentes (é apenas “doutora”), Joca terá mesmo verbalizado alto o que ia fazer. Para pânico dela.
“Não! Isso é como eles fazem!” [gritou desesperada]
Eles outra vez. “Então que vejam como monto a dona como eles gostariam!” [pensou maquiavélico Joca]
Virou-a e colocou-a na posição. Quer pelos ruídos emitidos por ela quer pelos latidos dos canídeos, já não era tanto o desespero que pairava mas sim a resignação. Joca entrou com força várias vezes e preparava-se freneticamente para largar a sua carga – não muito considerável, diga-se – de sémen quando começa a sentir-se esquisito. Já não consegue segurar a rapariga e sente fugir-se-lhe o equilíbrio e as pernas derraparem. O esforço, a droga e a bebida estariam a bater-lhe mal. Um latido seco foi a última coisa que ouviu antes de perder os sentidos e de tudo o resto perder o sentido.
UM FIM
Joca acorda. Só consegue arrastar-se um pouco. Repara que tem… patas de cão! E quatro, por sinal! E uma cauda! E... era um cão! A angústia galopa em crescendo ao ver aproximarem-se os dois cães (os tais Eles) da noite anterior. Um deles toma a iniciativa e fala com Joca, e em Português, que o país bem precisa disto.
“Parece-me que ainda não fomos apresentados: Paulo Silva, ex-corrector de seguros” [disse, sendo a raça à qual pertence fácil de adivinhar]
“Aqui este outro nosso… colega é o Joli. Não faça piadas com o nome dele: não gosta” [avisou]
Mas nesse momento, essa não era a maior preocupação de Joca. A sua súbita metamorfose de ser humano para canídeo era, por motivos óbvios, o que mais lhe fazia confusão. E nem sequer tinha ainda tido tempo para pensar em tragédias diárias da sua nova raça: pulgas, nomes ridículos, donos também ridículos ou abandonos no meio da auto-estrada, sobretudo na época balnear. Por isso, apenas conseguiu formular uma não muito elaborada questão:
“Que caralho me aconteceu?!” [perguntou ao cão Paulo]
Este continuou a contar a sua história. Era casado, com três filhos, quarenta e sete anos e tinha-se envolvido “com a gaja”, algo que já durava há uns meses. Não sabia exactamente desde quando pois, tal como os homens, também os cães parecem não ter a tecnologia cerebral para decorar datas. Um dia, quando tinham sexo e ao tentar “uma investida pela retaguarda” (pelo termo bélico, deveria fazer parte daquela associação de farrapos que emulavam batalhas napoleónicas sobre a qual Joca tinha lido uma vez numa das poucas revistas que abriu na vida), viu-se transformado em cão.
Joca não precisava de saber como terminava esta história. Afastou-se, conseguindo finalmente coordenar o andar com as duas novas patas. Foi para a varanda. Aí contemplou por entre o gradeamento a cidade que se estendia (até onde a poluição o permitia) diante dos seus olhos. Infelizmente, via agora, dado o animal literalmente que era, tudo com umas cores esquisitas. Mas nem tudo seria mau nesta sua nova vida de cão, pensou. Poderia finalmente saber qual a sensação de lamber os próprios tomates.
Algures no meio do planeta Terra, num aglomerado de glórias idas e complexos de inferioridade chamado Portugal, Joca e dois amigos sujeitam-se a um patético mas indispensável ritual masculino: ir à discoteca tentar engatar gajas. Além do incorrecto uso do plural na última palavra da pretérita frase, estes jovens aliavam ao seu mau aspecto, e ainda pior personalidade, o celebrar desenfreado de três dos mais perigosos flagelos conhecidos: álcool, droga e atitute-macho juvenil. É nesta discoteca manhosa – situada numa zona industrial da capital portuguesa, uma estratégia de marketing ainda por explicar – que estes três adeptos do tuning, bebida e ganza se misturam com algumas fêmeas que também elas procuram parceiro de acasalamento, isto no sentido moderno do termo, claro.
Os amigos de Joca querem bazar. Joca nem por isso. A música não está nada de especial (o Dj é “aquele broche Alvim”, sentenciou um dos seus informados amigos) mas a mescla álcool-charro leva-o a sentir-se estranhamente (o advérbio é nosso) confiante para engatar e ter relações – claramente sexuais - com uma dessas fêmeas. E eis que vê dançar no meio da pista uma rapariga mais velha que trabalha no mesmo edifício que ele. A diferença é que ela não foi lá parar via centro de emprego – é doutora. Nunca fala com ninguém, muito menos com Joca, membro da equipa de manutenção do edifício. A maneira como ela dança – embora as formas e cores que Joca vê estejam um pouco desvirtuadas pela bebida e droga – deixa-o excitado. Tanto que vai à casa de banho olhar-se ao espelho e encenar um possível diálogo com ela para quebrar o gelo. Mas o pensamento em gelo fá-lo pensar em pedir uma bebida, isto depois de enrolar uma. Passa depois pelo bar para pedir, após uma minuciosa análise ao conteúdo monetário da sua carteira, uma imperial. Na verdade, Joca nem bebe “cá Bacardis e essas merdas que os betos bebem”, sendo os betos esses jovens que se chamam “puto” uns aos outros enquanto fazem a mímica típica de rappers negros de guettos que vêem na MTV ou – qual deles o pior – de actores assaz forçados num certo programa de ficção juvenil que passa todos os dias antes do TeleSangue, emissão informativa das oito da noite.
O chato é que quando Joca volta para perto da pista -já a rapariga tinha deixado o perímetro do degradante espaço de diversão nocturna. Fica zangado e também ele sai, decidindo – ou alguma parte do seu cérebro por si – pegar no carro e fumar o charuto a caminho de casa. Segue pela estrada alternativa, não vá a bófia caçá-lo outra vez. E é neste contexto algo cliché que se depara com a rapariga – a doutora boazona – na berma, a pé. E ainda boazona. Olha com um ar perdido para o descampado e nem nota que o Seat Ibiza comercial com música a tentar fugir assustada dos seus altifalantes de Joca parou ao seu lado.
“Ah… ‘tá tudo?” [pergunta Joca à rapariga, meio atrapalhado e de novo com uma certa agitação na zona pélvica]
“Tive de abandonar um deles aqui há pouco tempo…” [respondeu, como já puderam ver, algo enigmaticamente]
Joca está todo mamado – não no sentido em que preferia – e não sabe o que responder.
“Tu é mais ganza, não é? Já te vi fumar no estacionamento atrás dos escritórios” [disparou com um inquietante conhecimento dos tempos livres no trabalho de Joca]
Seguiu-se um silêncio aflitivo embora se ouvissem alguns grilos ao longe. Talvez estivessem a foder, pensou ela. E aproveitou a embalagem.
“Queres fumar a que enrolaste na casa de banho em minha casa e foder-me depois?” [sugeriu ela com assombrosa naturalidade]
O silêncio Joquiano permanece igual, senhoras e senhores. Mas ela sabia a resposta.
“Só para que saibas, tenho cães em casa.” [informou-o ao fechar a porta do carro]
UM MEIO
Em casa dela, e mantendo o seu nexo comportamental, Joca permanecia calado. Os amigos gozavam sempre com ele por isso. Quando tinha de dar paleio às gajas, ficava sempre calado e acabava por nunca se orientar com as senhoras. Ficou mais animado ao lembrar-se que estava em casa de uma gaja boa com quem ia fumar uma ganza e fodê-la depois (como a própria tão maravilhosamente colocou em palavras), enquanto os seus amigos Edson e Giggy estariam – mais do que provavelmente – em casa do primeiro a jogar Playstation todos acabados. Ela voltou – de banho tomado, de roupão e sem maquilhagem – e sentou-se ao seu lado. Não tinha perdido, como dizer, a sua capacidade de ser boa como o caraças, nem tão pouco o atrevimento.
“Costumo ver-te por lá, com os outros brutos da manutenção. Mas não penses que te acho diferente ou especial. Só aqui estás para apanharmos uma moca e comermo-nos a seguir” [explicou, tirando o charuto do bolso do casaco de Joca e acendendo os dois]
Ele gostava de mulheres. Se fossem directas ao assunto – s.e.x.o., isto é – e gostassem d’um fumozito, tanto melhor. Fumaram-na ao som de uma cena porreira qualquer, tipo jazz ou assim e começou a chupá-lo. “Ganda cenário” [eloquentemente murmurou Joca]
Num ápice, estão nus na cama, com as implicações inerentes. O quarto é parecido com ela: estátuas de budas ou o caraças, candeeiros marados, incenso… Mais fumo. Joca vê-se em cima dela, enfiando o seu “guerreiro de cabeça púrpura, investindo na sua feminilidade” como leu uma vez num romance que a Mãe Joca andava a ler. O filho aprendeu a nunca mais usar livros alheios para espalhar e preparar a ganza.
“Puxa o lençol para trás: quero que eles vejam.” [ordenou a rapariga]
Mas eles quem? Joca ficou algo baralhado. Os vizinhos? Colegas de apartamento? Ou será que filmava as quecas com a webcam como a prima dele para fazer chantagem com os homens casados de meia-idade com quem tinha relações? É então que vê à entrada do quarto dois ilustres representantes da raça canina, um bulldog e um caniche, para ser mais preciso. Olham (os cães) para eles calmos e serenos, sentados, enquanto fodem (Joca e a rapariga). O jovem acha tudo isto algo doentio – mesmo para os seus padrões – e pensa “Já que é para merdas maradas, vais levar com ele por trás, sua…” Bem, ficam com a ideia do seu pensamento. Aliás, e partindo do pressuposto que a rapariga não lê mentes (é apenas “doutora”), Joca terá mesmo verbalizado alto o que ia fazer. Para pânico dela.
“Não! Isso é como eles fazem!” [gritou desesperada]
Eles outra vez. “Então que vejam como monto a dona como eles gostariam!” [pensou maquiavélico Joca]
Virou-a e colocou-a na posição. Quer pelos ruídos emitidos por ela quer pelos latidos dos canídeos, já não era tanto o desespero que pairava mas sim a resignação. Joca entrou com força várias vezes e preparava-se freneticamente para largar a sua carga – não muito considerável, diga-se – de sémen quando começa a sentir-se esquisito. Já não consegue segurar a rapariga e sente fugir-se-lhe o equilíbrio e as pernas derraparem. O esforço, a droga e a bebida estariam a bater-lhe mal. Um latido seco foi a última coisa que ouviu antes de perder os sentidos e de tudo o resto perder o sentido.
UM FIM
Joca acorda. Só consegue arrastar-se um pouco. Repara que tem… patas de cão! E quatro, por sinal! E uma cauda! E... era um cão! A angústia galopa em crescendo ao ver aproximarem-se os dois cães (os tais Eles) da noite anterior. Um deles toma a iniciativa e fala com Joca, e em Português, que o país bem precisa disto.
“Parece-me que ainda não fomos apresentados: Paulo Silva, ex-corrector de seguros” [disse, sendo a raça à qual pertence fácil de adivinhar]
“Aqui este outro nosso… colega é o Joli. Não faça piadas com o nome dele: não gosta” [avisou]
Mas nesse momento, essa não era a maior preocupação de Joca. A sua súbita metamorfose de ser humano para canídeo era, por motivos óbvios, o que mais lhe fazia confusão. E nem sequer tinha ainda tido tempo para pensar em tragédias diárias da sua nova raça: pulgas, nomes ridículos, donos também ridículos ou abandonos no meio da auto-estrada, sobretudo na época balnear. Por isso, apenas conseguiu formular uma não muito elaborada questão:
“Que caralho me aconteceu?!” [perguntou ao cão Paulo]
Este continuou a contar a sua história. Era casado, com três filhos, quarenta e sete anos e tinha-se envolvido “com a gaja”, algo que já durava há uns meses. Não sabia exactamente desde quando pois, tal como os homens, também os cães parecem não ter a tecnologia cerebral para decorar datas. Um dia, quando tinham sexo e ao tentar “uma investida pela retaguarda” (pelo termo bélico, deveria fazer parte daquela associação de farrapos que emulavam batalhas napoleónicas sobre a qual Joca tinha lido uma vez numa das poucas revistas que abriu na vida), viu-se transformado em cão.
Joca não precisava de saber como terminava esta história. Afastou-se, conseguindo finalmente coordenar o andar com as duas novas patas. Foi para a varanda. Aí contemplou por entre o gradeamento a cidade que se estendia (até onde a poluição o permitia) diante dos seus olhos. Infelizmente, via agora, dado o animal literalmente que era, tudo com umas cores esquisitas. Mas nem tudo seria mau nesta sua nova vida de cão, pensou. Poderia finalmente saber qual a sensação de lamber os próprios tomates.
Wednesday, October 28, 2009
Wednesday, October 21, 2009
Subscribe to:
Posts (Atom)